sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Testamento

Dôo, para quem conseguir levar, minha coleção de nuvens em formas variadas, uma pilha de tratados sobre nada, uma biblioteca inteira de livros ainda não escritos e um saco de saudades com recheio de quero-mais.

Deixo, pra quem quiser, meus relógios sem ponteiros, meus discos de silêncio, minhas telas em branco e meus filmes mudos, mas também cegos.
Tenho ainda para ofertar meu gato imaginário e o elefante que me leva pra passear nos sonhos que eu nunca tive, mas devo advertir, são tipos que exigem muitos cuidados e horas imensas de atenção.
Listo também meus pequenos pertences: um sapatinho boneca de verniz sem par, um bloco de bilhetes para tele-transporte, uma lembrança da visita à terra do nunca e o diário de bordo da viagem ao centro de mim.
Pro alto, eu jogo os meus bens mais queridos, a minha insanidade crônica, a lucidez relativa, minha loucura permissiva, a falta de lógica e a intensidade diária.
E tendo concluído esse testamento sem propósito, eu firmemente asseguro que o fiz de espontânea vontade e muito boa fé.
um dia achei que a terra
era pequena demais

mas cada metro de pessoa
guarda tantos mundos,
que um universo inteiro
está sempre ao alcance de nossas mãos.

terça-feira, 13 de julho de 2010

doação

dôo:
dor de asa
arrancada
dor de anjo
caído
dor de boca
fechada

- todas as despesas pagas.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Sem título

leio sua rotina,
seu contra-tempo
suas rubricas.
prevejo seus atos-falhos
suas bengalas e
seus lapsos.
conheço seus passos,
seus personagens
e enredos.
mesmo assim,
me deixo encantar
por sua cena de amor.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Reencontro

Tinha passado muito tempo. É claro que nos esbarramos algumas dúzias de vezes por aí, mesmo que no início eu tenha tentado a qualquer custo evitar. Nossos compromissos profissionais e amigos em comum nos levavam a isso. Ficávamos apenas nos cumprimentos formais ou, quando não era possível, nos restringíamos aos assuntos inevitáveis. Nunca chegaram a ser acontecimentos agradáveis mas com o tempo foram se tornando menos incômodos. Era um misto de excitação e pesar ter que me deparar com ele. Era sempre a felicidade de revê-lo ou ouvi-lo com a insatisfação de ver ressurgir as rusgas da separação. Algumas pessoas, ao perceberem meu embaraço e, como se tivessem me surpreendido em um mal feito, me dirigiam um sorriso e faziam o comentário, ainda que silencioso. Eu nunca respondi. Não tinha o que dizer. Não era propriamente um segredo que eu ainda o amasse, mas também não era um assunto que estivesse disposta a discutir com quem quer que fosse.

Depois desses anos todos, depois de filhos, relacionamentos, sucessos, desapontamentos, de tudo que houve na minha vida e na dele, fatos que nós sempre ficávamos sabendo através dos outros, o que já era em si um acinte, ele ligou. Fui eu mesma que atendi o telefone. E a ligação estava ruim, a música alta, a voz tinha mudado muito, mas bastou o primeiro alô e eu soube imediatamente que era ele. Da mesma forma que ele sabia que era desnecessário se identificar.

- O que você está fazendo?

- Nada. Bebo um pouco. Escrevo um pouco. Absolutamente nada.

O encontro naquele momento não era algo que precisava ser discutido, era um fato. Coube a nós os acertos de hora e local. Ele sugeriu um lugar onde nunca tínhamos estado antes. No dia seguinte, antes do pôr-do-sol, eu propus. Pronto. Nenhuma objeção tinha sido feita. Era um consenso. Depois de desligar o telefone, fiquei pensando porque eu estaria disposta a remexer nesse balaio de gatos. Uma história inacabada, as mágoas, um amor mal correspondido. Tudo isso, devidamente lacrado e mantido em dormência a um alto custo, poderia subir à tona como um afogado em busca do seu último fôlego. Era um risco.

Nesse tipo de encontro você tem duas possibilidades, ou você observa ou é observado. Eu cheguei mais cedo com um propósito bem claro. Ao contrário do que era habitual, eu me sentaria em um dos bancos e ficaria ali exposta aos olhos de quem quisesse ver. Não tinha em mãos nenhum livro atrás do qual pudesse me proteger.

Sim, eu quero ficar com ela mas eu te amo. Eu nunca pude entender isto e muito menos aceitar. Ainda me constrange pensar em todas as situações em que me envolvi acreditando que seria possível manter alguma coisa entre nós. Só eu mesma era incapaz de aceitar o que estava acontecendo. Ela era a mulher que ele realmente amava. Era isso que todas suas ações gritavam pra mim. E eu era alguma coisa que ele jamais conseguiria definir, como me repetiu várias vezes. O que ele sentia por mim oscilava entre irritação e fascinação, mas nunca foi realmente amor. Antes aquelas lembranças me humilhavam. Naquele dia eu já não saberia mais dizer como eu me sentia a respeito delas. Mas eu estava lá, esperando por ele e revivendo na memória todos aqueles momentos que eu tinha tido o cuidado de manter esquecidos.

Mais de mil vezes eu fantasiei esse encontro, imaginei que ficaria nervosa, iria querer fugir, mas não, eu firmei a cabeça e procurei pelos os olhos daquele homem que vinha na minha direção. Cabe tanta coisa em vinte passos. Calafrios. Sorrisos. Imagens. Palavras. Cabe a lembrança de uma vida inteira, agora transformada em uma dúzia de diferentes sensações. Ele se sentou. Talvez eu tivesse que dizer qualquer coisa. Talvez eu devesse ter feito um movimento. Mas fiquei ali parada, tentando reconhecer nas suas expressões algum vestígio do homem que eu amei. Ele disse. Era ele. Sem dúvida era ele. Mas eu não conseguia mais arriscar nenhum palpite sobre seus pensamentos. Não podia reconhecer mais nenhuma das suas reações. Era como se eu estivesse de frente a um completo estranho, cuja imagem eu tinha de alguma forma congelado na retina.

Eu quis chorar. Quis muito chorar. Mas não veio. Uma sensação terrível me chegava. Uma enxurrada de pensamentos iam e vinham como se passeassem em uma montanha russa. Nada se concretizava em fala. Não veio o choro assim como não vieram as palavras. Não havia nada de errado com ele. Continuava exatamente como era quando eu o conheci, talvez uns quilos a mais, alguns cabelos brancos e uns sulcos mais fortes no rosto, o mesmo. E, no entanto, eu não o reconhecia. Não tinha nada que pulasse da minha boca. Nenhuma ansiedade de dividir com ele os anos que estivemos distantes, nenhuma ânsia de apertar suas mãos, de receber um abraço, nenhuma esperança de que ele pudesse enfim me proporcionar um alivio. Não era ele. Não tinha sido ele. Era eu. Era a mim mesma que eu tinha de perdoar por tudo.

Porque as pessoas têm muito medo de dizerem que se arrependeram. E eu me arrependia de muitas coisas que tinha feito. Mas não há nada que se possa fazer com relação a isso. Arrependimento é inútil. E eu estava ali para provar isso. Não havia nada para se resgatar naquela história, não havia nada que pudesse ser retomado, revisto, recontado. Não havia nada que eu não houvesse entendido. Portanto, eu não tinha mais nada a dizer a ele. Nenhum agradecimento, nenhum ressentimento. Estávamos quites. E foi exatamente isso que me veio a cabeça quando eu estendi finalmente minha mão em direção a ele e o cumprimentei com um sorriso. Bem-vindo, adorável estranho.

Eu fiquei olhando para aquele homem que falava como se os anos fossem horas e apenas uma noite imensa nos separasse do tempo em que éramos tão essenciais um para outro como o ar que respirávamos. E pra mim, era como se tudo tivesse acontecido em uma outra vida. Por mais que eu insistisse, eu não conseguia reviver nenhum dos sentimentos que me percorriam quando estávamos juntos. Nenhum prazer, nenhuma angústia, nada. Será que eu tinha sido tão eficiente ao tentar amputar aquele homem de mim? Será que o ódio que eu usei para esquecê-lo fez realmente desaparecer qualquer sinal de amor? Ou será que era apenas tarde demais? Talvez eu não estivesse realmente disposta a descobrir. Talvez a simples lembrança daqueles momentos me blindassem contra qualquer reaproximação.

O homem ao meu lado tinha um sorriso largo e inseguro que eu nunca havia percebido, mas eu realmente não estava disposta a descobrir mais nada sobre ele. Uma mulher, mais que qualquer outra coisa, deve saber a hora de ir embora. E naquele caso, eu estava muito atrasada. Já havia protelado demais.

domingo, 24 de agosto de 2008

Carta ao pai

Eu escrevo uma carta a meu pai mas já não falo das memórias.
Nem faço hipóteses sobre o que teria sido.
É uma carta-presente.
Sobre os momentos em que me sinto como um relógio que parou
ou como uma porta que nunca fecha.
Sobre os momentos peitoril de janela, se eu não morasse em um arranha-céu.
Sobre uísque em copo baixo e pouco gelo em dias como qualquer outro.
Sobre o elefante que me leva pra passear nos sonhos que eu nunca tive.
Sobre noites em claro em que somos felizes e também sobre noites brancas.
Sobre nuvens carregadas, sobre céu alaranjado e sobre os medos.
Escrevo sobre roupas desconfortáveis e sapatos apertados.
E grito pra ele cada uma das angústias que não quero dividir com ninguém.
Teço discursos sobre tudo e sobre o nada.
Sobre minha forma estranha de cortar batatas.
Sobre o absurdo dos dias e a cumplicidade dos sonhos.
Sobre o escrever, sobre amar, sobre viver.
Revelo minhas impressões sobre a sua partida.
A persistência da falta quando não há mais a primeira dor.
E conto pra ele o que escondo de mim mesma.
Sobre a duração duvidosa da alegria e sobre a decisão de ir embora ou não.
Sobre estar no trampolim a um passo do salto mortal
e sobre o próprio salto que ainda não chegou ao fim...
É sobre isso que escrevo a meu pai.
E por falta de endereço, eu publico aqui.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Melhor de três

"Respondi que gostaria mesmo era de poder um dia afinal escrever uma história que começasse assim: "era uma vez...". Para crianças? perguntaram. Não, para adultos mesmo (...)" Clarice Lispector

Ainda me revira o estômago, disse ela passando o selo na língua pra ressuscitar a cola. Naquele tempo já não se escrevia mais cartas, mas ela insistia que algumas coisas não deviam ser feitas por telefone, muito menos por outros meios mais virtuais. Tinha caminhado até ali carregando seu velho guarda-chuva e vinha contando as cores dos automóveis que apareciam no caminho. Foram 3 cores e suas variações.

Se ele não vem, eu mando por escrito, insistiu. Passou a noite anterior elaborando a carta. Separando delicadamente o que precisava ser dito de todo resto que guardaria pra ela mesma. Colocou tudo no papel. Em palavras claras, gráficos, rabiscos, tinta azul, preta e vermelha. Isso porque a quarta cor da caneta estava falhando. As frases em verde ficaram adiadas pra um dia melhor, se ele viesse.

É como se eu tirasse um peso das costas: carregar comigo o coração alheio é uma tarefa muito árdua. E esparramou sobre o balcão as moedas que tinha na bolsa de bolinhas. Foi contando e separando as pequenas pilhas por valor e formato. Porque conviviam ainda o modelo novo e o antigo. Três reais e trinta centavos.

Alguém tinha que ter a coragem. Entregou tudo na mão da funcionária sorridente. O envelope, as moedas e um segredo: tinha cansado de ser a terça parte.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

POP

alice não mora mais aqui
e tenho saudade
do sorriso do seu gato
do país das maravilhas
e das cartas de amor que ela escrevia

quarta-feira, 4 de junho de 2008

história de amor

acho que
te amo

te amo
pra sempre

te amo
quase sempre

às vezes
eu te amo

te amei
enquanto pude

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Habeas Corpus

"Libertas quae sera tamem"

Tomo o meu corpo. Liberto. Dou, a mim, a possibilidade de ir para onde quiser e voltar quando bem entender. Sim, sou esse ser estranho com milhões de defeitos caros, que eu conservo como grandes jóias. Mas eu olho em volta e não tenho medo do mundo e não tenho medo de mim. Não temo mais os meus demônios guardados em caixinhas no armário. Eu posso ouvir o silêncio, a ausência, a falta e compreendê-los enfim. Ou não compreendê-los, sem deixar de aceitar que eles estarão sempre ali. Penso nos olhos que me vêem e não quero tranqüilizá-los. Fodam-se os que insistem em rechaçar os meus livros raros, o meu gosto desafinado, a felicidade em drágeas coloridas, os pequenos suicídios diários. Eles que olhem para mim e tentem desnudar minha cara, além dessas máscaras, ver minhas vísceras. Sim, eu sou tosca. Sou foda. Sou nada. E tenho tudo transbordando pelos poros. Eles que façam as pazes com as minhas coxas e as minhas estrias. Porque eu gosto delas. E gosto também das minhas olheiras de noites mal dormidas, dos meus cabelos brancos e cicatrizes pelo corpo. Eu gosto de tudo isso como gosto de mim. Chega de palavras inócuas. De discursos ocos. Não, eu não tenho explicações. Eu me concedo esse habeas corpus e decreto seu cumprimento a qualquer tempo e em qualquer instância, desde o princípio, agora e sempre. Amém.